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David - 10 anos PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Quarta, 21 Outubro 2009 21:43

A história de David – 10 anos

 

O Inicio

 

Uma denúncia no início do ano 2000 por negligência, falta de alimentação e por deixar os filhos sozinhos em casa. Uma mudança de residência fez com que se perdesse o rastro desta família e com que fosse arquivado o processo.

Três anos depois, nova denúncia, um número maior de filhos, mãe negligente ao nível da higiene, alimentação e saúde que continua a sair e a deixar os filhos sozinhos.

 

David: “Era uma casa pequena com aranhas. Eles atiravam-me aranhas e depois eu e o meu cão brincávamos.”

 

A habitação tinha uma completa falta de asseio, havia restos de comida e fraldas no chão, chichi e excrementos de cão, as camas estavam por fazer, as crianças andavam sujas e descalças no chão, não tomavam banho, cheiravam mal e iam para a rua sozinhas.

 

David: “Estão sempre a pôr lagartixas em cima de mim”

David: “O meu cão morreu, uma cobra matou-o”

 

A cozinha estava imunda, com pilhas de loiça suja com restos de comida (esparguete, cascas ovo partidas, etc.), um frasco que aparentava lagartos e cobras mortos por cima do frigorífico.

Por toda a parte roupas espalhadas, tigelas com restos de leite, cereais e beatas mergulhadas.

 

David: “ Estavam sempre a mandar-me para a cama”

 

Numa cama de corpo e meio ele dormia totalmente tapado, só se vendo os pés que estavam negros de sujidade. A casa tinha um cheiro desagradável e estava repleta de moscas que poisavam na boca dos irmãos que dormiam despidos.

 

O acolhimento institucional

 

As denúncias continuaram apesar de a mãe se mostrar colaborante a melhorar a situação. Dedicada à prostituição, a casa continuava imunda com bichos na cozinha e a comida podre nos pratos. As crianças continuavam a passar os dias sozinhos.

 

 

David: “A mãe velha segurava-me nos braços e a senhora da Segurança Social chamou as amigas para me levarem”

 

Já com 5 anos de vida a sua adaptação foi fácil, ficou maravilhado com o facto de tomar banho, com os brinquedos, a casa e o quarto. Estava contente e falador apesar das suas dificuldades em se expressar.

 

David:”A minha mãe deixava-me ver a máquina a rodar”

 

Com o seu acolhimento veio o despertar de atenção por parte de quem o tratava pelo fascínio que o David tem por rodas e ver rodar objectos. Quando a máquina da roupa estava ligada sentava-se à sua frente e encostava a cara no tambor para sentir as suas vibrações. Existiram situações em que a mãe ligava a máquina apenas para ele ficar ali quieto agarrado à máquina a vê-la rodar.

 

O David não reconhecia cores, não desenhava, não conseguia manter-se atento durante um pequeno período de tempo, a dentição tinha muitas cáries e via muito mal.

Demonstrava instabilidade emocional, um raciocínio desorganizado, um discurso pouco coerente e bastante confuso. Apresentava momentos de ausência em que não estabelecia relações e se fechava sobre si mesmo mergulhando numa acção repetitiva que dificilmente se conseguia quebrar.

O atraso no desenvolvimento era notório. A carência afectiva também.

Só perguntava pela mãe se ouvia algum dos irmãos fazê-lo. Raramente fazia a pergunta espontaneamente e por curiosidade própria. Durante as visitas se o David não tomasse a iniciativa de a procurar ela também não se dirigia a ele. Sempre foi posto de parte nestas visitas.

 

Tomada a medida de confiança com vista a futura adopção

 

David: ”Mãe, tu escolheste-me?”

            “Quero ficar contigo para sempre”

            “Os meus pais velhos morreram”

 

Passados 7 anos da primeira denúncia foi tomada a decisão.

Passados quase 2 anos passou a fazer parte da nossa família.

Chamou-nos pai/mãe à primeira oportunidade que lhe foi dada, adoptou-nos no primeiro minuto e com orgulho chama os coleguinhas para que nos conheçam.

 

David:”Amanhã é quando eu acordar?”

 

Com quase 10 anos de idade ainda mal saber ler, ainda tem um comportamento infantil e estereotipado, foi-lhe diagnosticada uma perturbação do espectro do autismo num grau leve. Têm um programa escolar adaptado e dificuldade de manter uma conversa que faça sentido. Tudo isto resultado de anos de falta de estímulos aos mais diversos níveis.

Mas… está a evoluir!

É hoje um miúdo feliz que veio completar uma família. No futuro pode não ser doutor nem engenheiro mas terá uma actividade que o realize e o faça feliz. E no fim, não é a felicidade dele o mais importante?

 

 

 

Actualizado em Quinta, 05 Novembro 2009 00:04